É sobre… Argh!
Tem uma coisa que anda me chamando atenção: a epidemia do “é sobre…” e do “não é sobre…” em frases motivacionais e textos de autoajuda. Parece que todo pensamento profundo agora precisa começar com essa fórmula mágica. “Não é sobre dinheiro, é sobre propósito.” “Não é sobre meta, é sobre jornada.” E por aí vai. De tanto repetir, a expressão foi esvaziando e virou muleta.
No contexto pessoal, isso empobrece a comunicação. A gente tem um vocabulário inteiro à disposição, nuances, verbos fortes, imagens, metáforas. Mas escolhe a versão pronta, plastificada. Em vez de dizer o que realmente quer dizer de forma natural e espontânea, recorre a uma estrutura rasa que soa profunda só porque está na moda.
No ambiente empresarial, então, fica ainda mais estranho. Reuniões estratégicas viram palco de frases genéricas: “Não é sobre processo, é sobre pessoas.” “Não é sobre resultado, é sobre cultura.” Mas estratégia exige precisão. Liderança exige clareza. Se queremos maturidade organizacional, precisamos de linguagem que traduza pensamento estruturado sem slogans reciclados.
Há mil maneiras melhores de construir uma ideia. Dá pra afirmar, contrastar, contextualizar, provocar, explicar. A língua portuguesa é vasta demais para ficar presa a duas fórmulas repetidas à exaustão. Comunicação forte não depende de bordões; depende de repertório, intenção e coragem de dizer algo com identidade própria.
